Crise Hídrica?

Saiba o que especialistas do setor elétrico estão analisando.

Após ser noticiado pela grande mídia e ser palco dos grandes jornais brasileiros, o assunto da vez no setor elétrico foi a crise hídrica, que afeta diversos reservatórios do Sistema Interligado Nacional. Contudo, especialistas do setor elétrico indicam que o momento é mais de atenção do que alarme.

Em diversas entrevistas, o Ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirma que não há possibilidade de racionamento, porém, é necessário preservar os reservatórios para que eles possam operar de forma adequada.

Segundo o ministro e especialistas, o cenário atual é completamente diferente do encontrado em 2001, quando ocorreu o famoso “apagão”, além dos anos de 2014 e 2015. Isto porque a matriz de geração brasileira sofreu alterações significativas.

Em 2001, cerca de 90% da geração nacional dependia das hidrelétricas, enquanto em 2014 e 2015 esse percentual foi reduzido para 78% e, atualmente, em 2021 as hidrelétricas correspondem a apenas 65%.

A expansão da energia solar, eólica e biomassa nos últimos anos alterou a matriz energética, que juntamente com a expansão da transmissão, unindo os centros de geração e carga, reduziu a dependência da energia hidrelétrica, apresentando inclusive uma sobreoferta estrutural no sistema.

Segundo PSR, consultoria especializada, durante Workshop do Canal Energia, o ”Brasil apresenta uma sobreoferta estrutural de 14% e mesmo com o baixo nível dos reservatórios no principal submercado (SE/CO), o atendimento da demanda pode ser efetuado com recursos que o país dispõe”.

De acordo com o último informativo da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica – CCEE, de 04 de junho, a projeção para os níveis de armazenamento para o Sistema Interligado Nacional – SIN no final de novembro/21 é de 19,4%, sendo esta maior que o pior valor do histórico de 19,0% em novembro/2017 e também maior que o menor valor de armazenamento atingindo em outubro/2017, de 17,9%.

Níveis de armazenamento do SIN

Fonte: CCEE

Apesar da média para todo o país ser melhor que em outros anos, o que preocupa os agentes do setor são os níveis de armazenamento no Sudeste/Centro-oeste, que podem chegar a 15,6%, sendo o pior do histórico, ficando atrás do ano de 2017, onde atingiram 16,4%.

Outro fator que impacta significativamente nos níveis de armazenamento e merece atenção é o consumo de energia.

Neste ano de 2021 houve aumento de 4,7% no consumo em relação ao ano de 2019, mas em abril e maio verificou-se uma redução. Porém, na projeção de consumo levada em consideração para os níveis de armazenamento espera-se uma retomada econômica forte, com valores superiores à 3% em julho e agosto.

Consumo de Energia (MW)

Aumento em percentual referente à 2019
Fonte: ONS

Caso o aumento de consumo esperado de junho a dezembro não seja alcançado, os níveis de armazenamento podem não chegar aos níveis críticos projetados pelos agentes.

Em relação ao próximo ano, 2022, ainda é cedo para se ter alguma conclusão, pois há grande incerteza em relação as afluências esperadas para este período seco e o próximo período úmido. Em 2018, os reservatórios tiveram recuperação interessante, saindo dos 17,9% em 2017 e atingindo valores acima de 45% em maio/18.

Ainda, é importante destacar que para 2022 há expectativa de entrada em operação de mais de 10.000 MW de energia nova no sistema, o que certamente impactará na transição e recuperação dos reservatórios.

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Autor: Rafael A. Coelho

COM MAIS DE 7 ANOS DE EXPERIÊNCIA NO SETOR, ENGENHEIRO ELETRICISTA COM MESTRADO PELA FURB EM ELETROMAGNETISMO COMPUTACIONAL E MBA EM NEGÓCIOS DO SETOR ELÉTRICO PELA FGV. ATUA TAMBÉM COMO PROFESSOR DE MERCADO DE ENERGIA EM CURSOS DE PÓS-GRADUAÇÃO

rafael@grugeen.eng.br

Rafael A. Coelho

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